Espuma dos dias — “Quarenta bebés inexistentes para ocultar um genocídio”, por Gerardo Tecé

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Quarenta bebés inexistentes para ocultar um genocídio

Aqueles que precisavam que esses corpos decapitados fossem reais eram os que, enquanto lançavam o embuste, punham em andamento um massacre contra o povo palestino no qual já assassinaram quase 500 crianças.

 Por Gerardo Tecé

Publicado por em 13 de Outubro de 2023 (original aqui)

 

Enquanto Israel bombardeia Gaza provocando mais de 1.500 mortes –centenas de crianças entre elas –, um meio de comunicação afim ao primeiro-ministro israelita Netanyahu publica uma chocante notícia: 40 bebés foram decapitados no atentado cometido dias atrás pelo Hamas em Kfar Aza. Os media de todo o mundo repetem a manchete: “40 bebés israelitas decapitados”. Surgem as primeiras dúvidas. As fontes mais confiáveis são as crónicas do New York Times e do Haaretz, primeiros meios de comunicação que tiveram acesso ao local do atentado, que descrevem cenas horríveis nas quais se fala de crianças massacradas, mas não dos supostos bebés decapitados que dias depois monopolizariam as manchetes da imprensa internacional. Com a suspeita de que possa se tratar da enésima manobra propagandística israelita para desviar a atenção, a jornalista que assina a notícia exclusiva dos 40 bebés decapitados explica que a sua fonte foi um soldado israelita que diz acreditar que isso aconteceu, mas que não tem a certeza.

Tudo indica que, efetivamente, se trata de um embuste. Uma manobra de distração que não pretende tanto horrorizar o mundo como transformar os palestinianos nos animais e bestas descritos pelo ministro da Defesa israelita que agora dirige as manobras para aniquilar essas bestas. Bestas civis que nada tiveram a ver com o atentado do Hamas. Bestas trabalhadores da ONU ou bestas motoristas de ambulância. O mundo sabe naquele momento que, mais uma vez, Israel mentiu. A fonte é inexistente, não há imagens desses 40 bebés decapitados, mas há, e muitas, de crianças palestinianas assassinadas pelas bombas de Israel sobre uma população civil que deixou sem acesso a luz, água e comida. É nesse ponto que a história dos 40 bebés decapitados atinge seu ponto máximo.

Em conferência de imprensa em Washington, o presidente americano Joe Biden, o mesmo que dias antes assinou a Israel um cheque em branco que permite ao seu portador violar direitos humanos e saltar por cima de vários pontos da Convenção de Genebra, declara perante os meios de comunicação. “Nunca pensei que veria e confirmaria imagens de terroristas decapitando crianças”. Ou seja, agora temos confirmação de fonte confiável. Embora não confirme o número de 40 crianças decapitadas, o presidente dos EUA assegura que o facto é verdadeiro e que ele mesmo pôde ver e verificar essas imagens. Horas depois, num facto sem precedentes, a Casa Branca desmente Biden e esclarece que o presidente não viu fotos de bebés decapitados em Israel e que, portanto, não pôde verificar se isso ocorreu. Biden, recordemos, fez concorreu à presidência denunciando que Trump governava à custa de embustes. Esta manobra na qual a própria administração Biden desmente o presidente deixa no ar a dúvida se Biden está capacitado para dirigir o país. Aqueles que o protegem estão provavelmente a tentar evitar que o apoio absoluto dos Estados Unidos a um Israel que viola todos os Direitos Humanos, além disso fique vinculado a um embuste facilmente demonstrável. Porque Biden é, recordemos, quem assinou a Israel o cheque em branco para destruir Gaza e dispor das vidas dos seus dois milhões de habitantes.

O desmentido da Casa Branca deixa claro que a história dos 40 bebés decapitados é uma cortina de fumo lançada enquanto o governo de Israel massacra Gaza, incluindo crianças. E neste ponto em que parece que tudo teria caído sob o seu próprio peso vem a nova e última manipulação em torno do caso. Talvez a mais vergonhosa. O governo israelita anunciou que divulgará as imagens das vítimas do atentado do Hamas em Kfar Aza. E fá-lo. Imagens horríveis mostram os corpos queimados de duas crianças e um terceiro cheio de sangue. O que confirma os relatos do New York Times e do Haaretz que ninguém pôs em dúvida. Também confirma que não há vestígios dos 40 bebés decapitados. Foi uma notícia falsa.

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Os satélites mediáticos de Israel iniciam nesse momento uma segunda parte desta campanha, dirigida agora àqueles que puseram em dúvida o embuste confirmado como tal. Uma nova manipulação consiste em usar as suas próprias vítimas. Que tipo de monstro é você que três crianças israelitas despedaçadas não lhe parecem suficientes? A resposta é tão simples que envergonha ter que a dar. Se se tratava de confirmar a brutalidade do atentado do Hamas, não era necessário tornar públicas essas imagens, já que as crónicas sobre o terreno do New York Times e do Haaretz eram fontes de informação fiáveis. Se se tratava de saber se o Governo de Israel mentiu sobre as suas próprias vítimas inventando a existência de 40 bebés decapitados, já ficou claro que essa mentira aconteceu, enquanto centenas de crianças palestinianas eram massacradas pelos mesmos que divulgavam o embuste. Que tipo de monstro faz isso?

Que esta história de manipulação e propaganda não faça esquecer o importante. O atentado do Hamas contra civis foi horrível e desumano. E ninguém precisa de uma decapitação fictícia de 40 bebés para deixar isso claro. Quem necessitava desses 40 bebés decapitados eram os que, enquanto faziam circular esse embuste, puseram em marcha um massacre, horrível e desumano, contra o povo palestiniano no qual não assassinaram 4, nem 40, mas quase 500 crianças durante a semana. Os que ainda não foram assassinados vivem neste momento sem eletricidade, cortada por Israel, sem comida, sem água, com os comboios humanitários bombardeados por Israel, e à espera de saber se o próximo edifício de habitação destruído será o seu. Não sabemos se Biden terá tido acesso a essas imagens que todo o planeta observa.

 

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O autor: Gerardo Tecé [1982-], jornalista espanhol, com formação superior em Estatística (Universidade de Sevilha). Atualmente é correspondente de CTXT na Andaluzia, escreve para late Motiv e continua na Agência Plop que fundou em 2015.

 

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